Necas
"E este móvel fui eu que construí. Vês estas fechadura? Durou-me duas semanas para encontrar uma assim. Queria a mais bela de todas para que um dia este pequeno móvel te siga na tua vida. É a minha herança para ti: um pequeno pedaço de madeira moldado com todo o amor. Para te lembrares do segredo"
Via-a a correr com os seus longos cachos castanhos a cairem-lhe pelos ombros, com os sapatos azuis e os joelhos esfolados como sempre. Apanhava todas as flores que encontrava no caminho e as pedras que mais gostava guardava no bolso do macacão. Depois vinha com o seu sorriso maroto e com os seus grandes olhos mostrar-me os seus pequenos tesouros, ou melhor, "tesoous" como ela dizia. Era tão engraçada ao falar a pequena. Cumprimentava-lhe sempre a dizer "então hoje vais querer cabalhao?" E ela deliciava-se a rir. Sabia que era mais um carinho de meio de infinitos. Desde o deixa-la sentar no meu colo quando via o telejornal ao ve-la a dançar durante horas.
Os anos foram passado e pousou os sapatos de lado para usar as all star sempre rasgadas, o cabelo ficou curto e os cachos deram origem a ondas serenas. Já não íamos tanto ao jardim pois a pequena saia mais tarde da escola e tinha sempre tantos deveres a fazer. Nem sempre a conseguia ajudar mas acho que ela entendia isso bem. Raramente pedia ajuda. Não só sobre os estudos claro está, mas que podia eu fazer? Além das velhas brincadeiras que ficavam sempre. Posso dizer, com orgulho, que a minha neta sentou-se no meu colinho até aos 12 anos e continuava a rir-se do "cabalhao". E era um riso genuíno posso dizer. Tudo nela é genuíno, até quando ela tenta mostrar que nao se preocupa ou que não percebe... aquele medo genuíno de crescer, sabem?
Desde o fim daquele verão passei a observa-la de uma fonte mais... distante? Via quando ela escondia o rosto da multidão, ou quando ela foi para trás daquele shopping experimentar pela primeira vez aquele maldito cigarro. Também vi o sorriso dela ao fazer festas à cadela vadia que mais tarde trouxe para casa e toda a emoção da primeira apaixoneta. Pousei-lhe a mão no ombro quando ela olhava ao espelho a morder o lábio e dizia-lhe bem ao ouvido "estas bonita assim pequena. Vai e diverte-te" e também vinha sempre ao socorro dela nas horas mais negras. Sempre a rodeio e sempre a irei proteger. E acho que ela sabe isso pois sempre que se senta a janela do quarto a olhar para as estrelas e sentia o vento sorria e perguntava-me como eu estava. Sempre que algo de mau lhe acontecia ela pedia ao universo e a mim por forças. E estava sempre a pensar "e se o bu tiver visto isto...? O que ele acha de mim neste momento? Será que se orgulha?"
Ver a minha pequena a transformar-se numa adulta. Tudo o que eu quis. E tudo o que ela sempre quis que acontecesse. Sempre que ela olha para o armário sabe que estou com ela.
Minha querida... eu vivo no teu coração. Nessa confusão imensa e nesse imenso coração que tudo sente, tudo relembra. Porque achas que ainda te lembras tão detalhamente do meu cheiro?
E eu via a minha pequena ao longe... a correr com a cadela e com a minha boina. E os risos dela preenchiam a minha rua. Ah, e o segredo? Com todo o amor moldas algo pequeno... em algo cheio de significado. Em algo grande.


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